Da marginalidade construtiva à protagonista de projetos de alto padrão: como a tecnologia da madeira engenheirada está redesenhando o futuro da arquitetura brasileira.
Um novo olhar para a madeira
Durante muito tempo, construir com madeira no Brasil foi sinônimo de soluções provisórias, tapumes ou galpões rurais. Esse cenário, porém, está em franca transformação.
Nos últimos anos, a evolução dos sistemas industrializados, como MLC (Madeira Lamelada Colada), CLT (Cross Laminated Timber) e outras estruturas engenheiradas, reposicionou a madeira no radar da construção civil séria. Hoje, ela já é especificada em residências de alto padrão, equipamentos institucionais, obras comerciais e projetos de grande escala não mais como acabamento superficial, mas como estrutura principal, esqueleto e pele dos edifícios.
Essa mudança não acontece por acaso. Ela nasce da combinação entre tecnologia de ponta, engenharia de precisão e uma nova mentalidade projetual, que enxerga a madeira como um material contemporâneo, técnico e absolutamente confiável.
O que já mudou: conquistas de um setor em evolução
Alguns avanços são claros e merecem destaque. Eles representam a base sólida sobre a qual podemos continuar construindo.
Industrialização do processo construtivo
A madeira deixou de ser majoritariamente talhada e ajustada na obra, sujeita a improvisos e intempéries. O pré-corte, a usinagem CNC e o rigoroso controle de qualidade em fábrica elevaram o patamar técnico do material. O que chega ao canteiro não é mais matéria-prima bruta, mas sim um kit de peças precisas, prontas para montar.
Desempenho e previsibilidade
Diferentemente da madeira convencional, os sistemas engenheirados oferecem comportamento estrutural calculado, repetibilidade e alta previsibilidade ao longo do tempo. Para arquitetos e engenheiros, isso significa a possibilidade de ousar com segurança.
Velocidade e organização no canteiro
Obras em madeira engenheirada reduzem drasticamente os prazos de execução. Canteiros mais limpos, organizados, silenciosos e com geração mínima de resíduos tornam-se a regra um contraste evidente com a obra úmida tradicional.
Reconhecimento arquitetônico
A linguagem estética da madeira passou a ocupar lugar de destaque em publicações especializadas, premiações e plataformas globais de arquitetura. Esse reconhecimento ajuda a consolidar seu valor não apenas técnico, mas também cultural e projetual.
O que ainda precisa mudar: os gargalos que travam o salto
Se os avanços são inegáveis, os desafios que persistem nos lembram que a estrada ainda é longa. Superá-los é condição para que a madeira deixe de ser exceção e se torne realmente uma opção competitiva em larga escala.
A desinformação técnica ainda impera
Mitos sobre durabilidade, comportamento ao fogo, manutenção e custo ainda circulam livremente inclusive entre formadores de opinião. A falta de informação qualificada e atualizada limita decisões de projeto e afasta investidores.
Normativas e regulamentações defasadas
Embora o Brasil tenha avançado com a atualização da NBR 7190, a ponta do sistema os códigos de obras municipais, as exigências dos bombeiros, os critérios de financiamento ainda opera, em grande parte, com regras pensadas para concreto e aço. Precisamos de normas claras, atualizadas e amplamente difundidas.
Integração imperfeita da cadeia produtiva
Construir com madeira engenheirada exige uma sinergia fina entre projeto, engenharia de cálculo, indústria e montagem especializada. Essa integração ainda engasga: nem sempre o projetista conhece as possibilidades da fábrica, nem a indústria se antecipa às demandas reais do canteiro.
Formação profissional defasada
A madeira segue sub-representada nos currículos de arquitetura e engenharia no Brasil. Profissionais formados recentemente podem passar por toda a graduação sem contato significativo com o dimensionamento ou a especificação de sistemas em madeira. O resultado é um mercado com pouca mão de obra habilitada a projetar e executar com segurança.
Madeira não é alternativa: é estratégia
Construir com madeira no Brasil não deve ser tratado como exceção exótica ou tendência passageira. Trata-se, isso sim, de uma estratégia construtiva alinhada aos critérios mais exigentes de desempenho técnico, responsabilidade ambiental e eficiência produtiva.
Quando bem especificada, a madeira oferece:
O papel de quem constrói: a confiança se faz no detalhe
A consolidação definitiva da madeira como sistema construtivo no Brasil passa, necessariamente, por quem projeta, quem fabrica e quem executa. É no detalhe técnico bem resolvido, na engenharia cuidadosa e na obra rigorosamente montada que a confiança esse ativo intangível, mas decisivo se constrói.
Mais do que defender a madeira como bandeira, é preciso demonstrar, na prática, que ela funciona. Projeto a projeto. Obra a obra.
Conclusão
O Brasil já mudou em relação à construção com madeira, mas ainda está em pleno processo de transformação. Os fundamentos estão lançados: temos tecnologia, temos matéria-prima de reflorestamento certificada, temos cases de sucesso e uma nova geração de profissionais interessada em inovar.
O que falta é articular esses avanços com a atualização normativa, a formação qualificada e a integração efetiva da cadeia. Quando essas peças se encaixarem de vez, a madeira terá tudo para ser parte fundamental e não periférica do futuro construtivo brasileiro.
E nós, que atuamos nesse mercado, temos a responsabilidade de acelerar esse processo.
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